CONSELHO FEDERAL DE BIOLOGIA

 

RESOLUÇÃO Nº 2, DE 5 DE MARÇO DE 2002

 

“Aprova o Código de Ética do Profissional Biólogo”.

 

                        O CONSELHO FEDERAL DE BIOLOGIA - CFBio, Autarquia Federal criada pela Lei nº 6.684, de 03 de setembro de 1979 e regulamentada pelo Decreto nº 88.438, de 28 de junho de 1983, no uso de suas atribuições legais e regimentais, considerando o decidido na 166ª Sessão Plenária, realizada dia 1º de dezembro de 2001,

 

RESOLVE:

 

            Art. 1º - Aprova o Código de Ética do Profissional Biólogo, anexo a esta Resolução.

            Art. 2º - O presente Código entra em vigor na data de sua publicação.

            Art. 3º - Revogam-se as disposições em contrário.

 

 

CÓDIGO DE ÉTICA DO PROFISSIONAL BIÓLOGO

PREÂMBULO

 

         Art. 1º - O presente Código contém as normas éticas e princípios que devem ser seguidos pelos Biólogos no exercício da profissão.

Parágrafo único – As disposições deste Código também se aplicam às pessoas jurídicas e firmas individuais devidamente registradas nos Conselhos de Biologia, bem como aos ocupantes de cargos eletivos e comissionados.

 

CAPÍTULO I

Dos Princípios Fundamentais

 

Art. 2º - Toda atividade do Biólogo deverá sempre consagrar respeito à vida, em todas as suas formas e manifestações e à qualidade do meio ambiente.

 

            Art. 3º - O Biólogo exercerá sua profissão cumprindo o disposto na legislação em vigor e na específica de sua profissão e de acordo com o “Princípio da Precaução” (definido no Decreto Legislativo nº 1, de 03/02/1994, nos Artigos 1º, 2º, 3º e 4º), observando os preceitos da Declaração Universal dos Direitos Humanos.

 

            Art. 4º - O Biólogo terá como princípio orientador no desempenho das suas atividades o compromisso permanente com a geração, a aplicação, a transferência, a divulgação e o aprimoramento de seus conhecimentos e experiência profissional sobre Ciências Biológicas, visando o desenvolvimento da Ciência, a defesa do bem comum, a proteção do meio ambiente e a melhoria da qualidade de vida em todas suas formas e manifestações.

 

CAPÍTULO II

Dos Direitos Profissionais do Biólogo

 

         Art. 5º - São direitos profissionais do Biólogo:

                        I - Exercer suas atividades profissionais sem sofrer qualquer tipo de discriminação, restrição ou coerção, por questões de religião, raça, cor, opção sexual, condição social, opinião ou de qualquer outra natureza;

                        II - Suspender suas atividades, individual ou coletivamente, quando o empregador ou tomador de serviços para o qual trabalha não oferecer condições mínimas para o exercício profissional;

                        III - Requerer ao Conselho Regional de sua Região desagravo público, quando atingido no exercício de sua profissão;

                        IV - Exercer a profissão com ampla autonomia, sem renunciar à liberdade profissional, obedecendo aos princípios e normas éticas, rejeitando restrições ou imposições prejudiciais à eficácia e correção ao trabalho e recusar a realização de atos que, embora permitidos por lei, sejam contrários aos ditames da sua consciência;

                        V - Exigir justa remuneração pela prestação de serviços profissionais, segundo padrões usualmente praticados no mercado e aceitos pela entidade competente da categoria.

 

CAPITULO III

Dos Deveres Profissionais do Biólogo

 

         Art. 6º - São deveres profissionais do Biólogo:

                        I - Cumprir e fazer cumprir este Código, bem como os atos e normas emanadas dos Conselhos Federal e Regionais de Biologia;

                        II - Manter-se em permanente aprimoramento técnico e científico, de forma a assegurar a eficácia e qualidade do seu trabalho visando uma efetiva contribuição para o desenvolvimento da Ciência, preservação e conservação de todas as formas de vida;

                        III - Exercer sua atividade profissional com dedicação, responsabilidade, diligência, austeridade e seriedade, somente assumindo responsabilidades para as quais esteja capacitado, não se associando a empreendimento ou atividade que não se coadune com os princípios de ética deste Código e não praticando nem permitindo a prática de atos que comprometam a dignidade profissional;

                        IV - Contribuir para a melhoria das condições gerais de vida, intercambiando os conhecimentos adquiridos através de suas pesquisas e atividades profissionais;

                        V - Contribuir para a educação da comunidade através da divulgação de informações cientificamente corretas sobre assuntos de sua especialidade, notadamente aqueles que envolvam riscos à saúde, à vida e ao meio ambiente;

                        VI - Responder pelos conceitos ou opiniões que emitir e pelos atos que praticar, identificando-se com o respectivo número de registro no CRBio na assinatura de documentos elaborados no exercício profissional, quando pertinente;

                        VII - Não ser conivente com os empreendimentos ou atividades que possam levar a riscos, efetivos ou potenciais, de prejuízos sociais, de danos à saúde ou ao meio ambiente, denunciando o fato, formalmente, mediante representação ao CRBio de sua região e/ou aos órgãos competentes, com  discrição e fundamentação;

                        VIII - Os Biólogos, no exercício de suas atividades profissionais, inclusive em cargos eletivos e comissionados, devem se pautar pelos princípios da legalidade, impessoalidade, moralidade, probidade, eficiência e ética no desempenho de suas funções;

                        IX - Apoiar as associações profissionais e científicas que tenham por finalidade:

                        a) defender a dignidade e os direitos profissionais dos Biólogos;

                        b) difundir a Biologia como ciência e como profissão;

                        c) congregar a comunidade científica e atuar na política científica;

                        d) a preservação e a conservação da biodiversidade e dos ecossistemas;

                        e) apoiar a pesquisa e o desenvolvimento da ciência;

 

                        X - Representar ao Conselho de sua Região nos casos de exercício ilegal da profissão e de infração a este Código, observando os procedimentos próprios;

                        XI - Não se prevalecer de cargo de direção ou chefia ou da condição de empregador para desrespeitar a dignidade de subordinado(s) ou induzir ao descumprimento deste Código de Ética;

                        XII - Colaborar com os CRBios e o CFBio, atendendo suas convocações e normas;

                        XIII - Fornecer, quando solicitado, informações fidedignas sobre o exercício de suas atividades profissionais;

                        XIV - Manter atualizado seus dados cadastrais, informando imediatamente quaisquer alterações tais como titulação, alteração do endereço residencial e comercial, entre outras.

 

 

CAPÍTULO IV

Das Relações Profissionais

 

         Art. 7º - O Biólogo, como pessoa física ou como representante legal de pessoa jurídica prestadora de serviços em Biologia recusará emprego ou tarefa em substituição a Biólogo exonerado, demitido ou afastado por ter-se negado à prática de ato lesivo à integridade dos padrões técnicos e científicos da Biologia ou por defender a dignidade do exercício da profissão ou os princípios e normas deste Código.

 

            Art. 8º - O Biólogo não deverá prejudicar, direta ou indiretamente, a reputação ou atividade de outro Biólogo, de outros profissionais, de instituições de direito público ou privado.

 

            Art. 9º - O Biólogo não será conivente com qualquer profissional em erros, omissões, faltas éticas ou delitos cometidos por estes nas suas atividades profissionais.

 

            Art. 10 - O Biólogo empenhar-se-á, perante outros profissionais e em relacionamento com eles, em respeitar os princípios técnicos, científicos, éticos e de precaução.

 

 

CAPÍTULO V

Das Atividades Profissionais

 

         Art. 11 - O Biólogo deve atuar com absoluta isenção, diligência e presteza, quando emitir laudos, pareceres, realizar perícias, pesquisas, consultorias, prestação de serviços e outras atividades profissionais, não ultrapassando os limites de suas atribuições e de sua competência.

 

            Art. 12 - O Biólogo não pode alterar, falsear, deturpar a interpretação, ser conivente ou permitir que sejam alterados os resultados de suas atividades profissionais ou de outro profissional que esteja no exercício legal da profissão.

 

            Art. 13 - Caberá aos Biólogos, principalmente docentes e orientadores esclarecer, informar e orientar os estudantes de Biologia incentivando-os a observarem a legislação vigente e específica da profissão e os princípios e normas deste Código de Ética.

 

            Art. 14 - O Biólogo procurará contribuir para o aperfeiçoamento dos cursos de formação de profissionais das Ciências Biológicas e áreas afins.

 

            Art. 15 - É vedado ao Biólogo qualquer ato que tenha como fim precípuo a prática de tortura ou outras formas de procedimentos degradantes, desumanos ou cruéis dirigidos à quaisquer formas de vida sem objetivos claros e justificáveis de melhorar os conhecimentos biológicos, contribuindo de forma responsável para o desenvolvimento das Ciências Biológicas.

 

            Art. 16 - O Biólogo deve cumprir a legislação competente que regula coleta, utilização, manejo, introdução, reprodução, intercâmbio ou remessa de organismos, em sua totalidade ou em partes, ou quaisquer materiais biológicos.

 

            Art. 17 - O Biólogo deverá efetuar a avaliação e denunciar situações danosas ou potencialmente danosas decorrentes da introdução ou retirada de espécies em ambientes naturais ou manejados.

 

            Art. 18 - O Biólogo deve se embasar no “Princípio da Precaução” nos experimentos que envolvam a manipulação com técnicas de DNA recombinante em seres humanos, plantas, animais e microrganismos ou produtos oriundos destes.

 

            Art. 19 - O Biólogo deve ter pleno conhecimento da amplitude dos riscos potenciais que suas atividades poderão exercer sobre os seres vivos e meio ambiente, procurando e implementando formas de reduzi-los e eliminá-los, bem como propiciar procedimentos profiláticos eficientes a serem utilizados nos danos imprevistos.

 

            Art. 20 - O Biólogo deve manter a privacidade e confidencialidade de resultados de testes genéticos de paternidade, de doenças e de outros procedimentos (testes/experimentação/pesquisas) que possam implicar em prejuízos morais e sociais ao solicitante, independentemente da técnica utilizada.

 

            Parágrafo único: Não será observado o sigilo profissional previsto no caput deste artigo, quando os resultados indicarem riscos ou prejuízos à saúde humana, à biodiversidade e ao meio ambiente, devendo o profissional comunicar os resultados às autoridades competentes.

 

            Art. 21 - As pesquisas que envolvam microrganismos patogênicos ou não ou organismos geneticamente modificados (OGMs) devem seguir normas técnicas de biossegurança que garantam a integridade dos pesquisadores, das demais pessoas envolvidas e do meio ambiente, tendo em vista o “Princípio da Precaução”.

 

            Art. 22 - É vedado ao Biólogo colaborar e realizar qualquer tipo de experimento envolvendo seres humanos com fins bélicos, políticos, raciais ou eugênicos, assim como utilizar seu conhecimento para desenvolver armas biológicas.

 

            Art. 23 - Nas pesquisas que envolvam seres humanos, o Biólogo deverá incluir, quando pertinente, o Termo de Consentimento Informado, ou a apresentação de justificativa com considerações éticas sobre o experimento.

 

            Art. 24 - É vedado ao Biólogo o envio e recebimento de material biológico para o exterior sem a prévia autorização dos órgãos competentes.

 

CAPÍTULO VI

Das Publicações Técnicas e Científicas

 

         Art. 25 - O Biólogo não deve publicar em seu nome trabalho científico do qual não tenha participado ou atribuir-se autoria exclusiva de trabalho realizado em cooperação com outros profissionais ou sob sua orientação.

 

            Art. 26 - O Biólogo não deve apropriar-se indevidamente, no todo ou em parte, de projetos, idéias, dados ou conclusões, elaborados ou produzidos por grupos de pesquisa, por Biólogos ou outros profissionais, por orientandos e alunos, publicados ou ainda não publicados e divulgados.

 

            Art. 27 - O Biólogo não deve utilizar, na divulgação e publicação de seus próprios trabalhos, quaisquer informações, ilustrações ou dados, já publicados ou não, obtidos de outros autores, sem creditar ou fornecer a devida referência à sua autoria ou sem a expressa autorização desta.

 

CAPÍTULO VII

Das Disposições Gerais

 

         Art. 28 - É vedado ao Biólogo valer-se de título acadêmico ou especialidade que não possa comprovar.

 

            Art. 29 - As dúvidas na interpretação e os casos omissos deste Código serão resolvidos pelo Conselho Federal de Biologia, ouvidos os Conselhos Regionais de Biologia.

 

            Parágrafo único - Compete ao Conselho Federal de Biologia incorporar a este Código as decisões referidas no "caput" deste artigo.

 

            Art. 30- O presente Código poderá ser alterado pelo Conselho Federal de Biologia por iniciativa própria ou mediante provocação da categoria, dos Conselhos Regionais, ou de Biólogos, à luz dos novos avanços científicos ou sociais, ouvidos os Conselhos Regionais.

 

            Art. 31 - Os infratores das disposições deste Código estão sujeitos às penalidades previstas no Art. 25 da Lei 6.684, de 03 de setembro de 1979 e demais normas sem prejuízo de outras combinações legais aplicáveis.

 

            § 1º - As faltas e infrações serão apuradas levando-se em consideração a natureza do ato e as circunstâncias de cada caso.

 

            § 2º - As penalidades previstas são as seguintes:

                        I - advertência;

                        II - repreensão;

                        III - multa equivalente a até 10(dez) vezes o valor da anuidade;

                        IV - suspensão do exercício profissional pelo prazo de até 3(três) anos, ressalvada a hipótese prevista no § 7º do Art. 25 da Lei nº 6.684/79;

V - cancelamento do registro profissional.

 

            § 3º - Salvo os casos de gravidade manifesta ou reincidência, a imposição das penalidades obedecerá à gradação deste artigo, observadas as normas estabelecidas pelo Conselho Federal para disciplina do processo de julgamento das infrações ético - disciplinares.

 

            § 4º - Na fixação da pena serão considerados os antecedentes profissionais do infrator, o seu grau de culpa, as circunstâncias atenuantes e agravantes e as conseqüências da infração.

 

            § 5º - As penas de advertência, repreensão e multa serão comunicadas pela instância própria, em ofício reservado, não se fazendo constar dos assentamentos do profissional punido, a não ser em caso de reincidência.

 

            Art. 32 – Este Código entra em vigor na data de sua publicação.

 

NOEMY YAMAGUISHI TOMITA

Presidente do Conselho

 

(Publicado no DOU, Seção 1, de 21.3.2002)

 

 

MANIFESTAÇÃO DO CONSELHO FEDERAL DE BIOLOGIA (CFBio)  EM RELAÇÃO AOS ORGANISMOS GENETICAMENTE MODIFICADOS (OGMs)

 

 

O Conselho Federal de Biologia (CFBio)  está acompanhando os novos avanços que vem ocorrendo na biotecnologia e pretende com o  presente documento , propor uma orientação no exercício profissional ,  introduzindo  uma variável compatível com as atividades de cada Biólogo, respeitando as diferentes formas de vida e suas  interações com o meio ambiente.

Historicamente, sabe-se que os grandes avanços da ciência foram movidos pelo instinto dos pesquisadores que sempre tiveram a liberdade de desenvolver suas pesquisas sem a preocupação de para onde ela os levaria.  Nas últimas décadas, os resultados gerados nas bancadas dos laboratórios foram rapidamente integrados na atual forma de vida da sociedade. Por outro lado , a evolução do modelo de desenvolvimento mundial , promovendo a evolução da atividade biotecnologica , através  dos  avanços obtidos na técnica do DNA recombinante e nos métodos de transformação genética de células de plantas e animais, tornaram  possível a transferência de genes de várias classes de organismos, ultrapassando os limites impostos pela incompatibilidade sexual. Essas técnicas são ferramentas que podem ser analisadas através de muitas perspectivas, possuindo o potencial de aportar benefícios e riscos, iguais  a outras tecnologias. No entanto, outorgam também  um novo poder sem precedentes para a humanidade, pois permitem manipular de forma seletiva o germoplasma , criando organismos geneticamente modificados, mas ao mesmo tempo criando para a sociedade um dilema ético e moral. A partir dessa conjuntura,  começa-se a vislumbrar a possibilidade de ações sobre a vida e começam-se  avaliar os riscos nos campos  ético e sociológico. Verifica-se que há uma questão importante que se relaciona com o fato de serem  as atividades dos cientistas  protegidas pelas barreiras de seus laboratórios e essas barreiras são,  por vezes,   intransponíveis, pois que  a ciência pode  exercer esse totalitarismo,  e não estar  buscando  a percepção da sociedade. Pelo fato de as pesquisas ,nem  sempre serem  submetidas a comitês de ética ou ao rígido cumprimento dos princípios definidos por esta , pode-se pressupor que as noções de segurança dependem de cada pesquisador .

A sociedade, encontra-se cada dia mais preocupada com aspectos relacionados com as atividades cientificas e seus efeitos. Esta  participação iniciou-se logo após a Segunda Guerra Mundial, onde a tecnologia nuclear e as pesquisas da definição da molécula do DNA causaram impactos,  fazendo com que as populações humanas  agora   procurem  estar  mais informadas, possuindo  conhecimentos e estando  em condições de exercer e exigir seus direitos.  Por outro lado , aumentaram as preocupações  com o perigo em desenvolver organismos mutantes ou novos agentes químicos que possam , além do impacto no meio ambiente,  colocar  em risco o próprio futuro da  espécie humana  neste planeta, Portanto, é fundamental  que a sociedade seja informada de uma maneira compreensível e sobretudo  neutra em relação as atividades científicas de maneira a permitir-lhe decisões e tomadas de posições equilibradas e concretas ( não emocionais).

Em todo mundo, e no Brasil não poderia ser diferente é motivo de grande polêmica o emprego dos  organismos geneticamente modificados (OGMs) , considerados por  alguns pesquisadores  como uma tecnologia avançada, capaz de produzir grandes avanços em questões relacionadas com mais saúde , mais e melhores alimentos , entre outros aspectos, enquanto que outros contrariamente temem que possa haver riscos ao meio ambiente ou à saúde do homem , e ainda, criando  dependência econômica cada  vez maior dos países "pobres" em relação àqueles mais desenvolvidos, detentores da maioria das tecnologias e patentes .

 

Por um lado a ciência avança disponibilizando uma quantidade de informações muito grande para  os  pesquisadores diariamente, por outro lado a  gestão da vida continua, demonstrando claramente que os  sistemas vivos são complexos e diversos, e mantém estruturas de auto-organização que os mantém interagindo com o meio ambiente, sendo  esta  a base da manutenção da vida. No momento em que se introduzem mecanismos externos de regulação nos sistemas vitais ,  deve-se atentar ao fato de que estas alterações podem vir a   promover modificações na dinâmica vital , operacional e evolutiva dos organismos envolvidos , levando inclusive à discussões sobre  aspectos de valoração e formas da utilização  dos mesmos.

O CFBio  vem procurando avaliar cuidadosamente a polêmica existente , e a divulgação de resultados , adotando uma postura de muita cautela e cuidados,   principalmente considerando-se que grande parte dos pesquisadores  envolvidos são ligados a esta categoria profissional, visto que a adoção de uma tomada de posição definitiva ainda não possível, pois não se tem ainda suficientes garantias de ausência de riscos à saúde, meio ambiente , agricultura , aspectos  socio-economicos e culturais. Além disto entende-se que urge ampliar as discussões quanto à liberação ampla  de produção, uso, consumo de OGMs, e relacionando-se estes com os  aspectos éticos envolvidos, pois tem-se a noção de que apenas a exigência de identificação ou rotulagem de OGMs  não propicia garantias de sua qualidade  e segurança.  

Faz-se necessário que sejam estabelecidas normas e comportamentos   aceitáveis e éticos, os quais englobem as varias tendências e respeitando a pluralidade de opiniões. Entretanto destaca-se que é indispensável que a  base legal e o regramento legislativo que dispõem sobre o desenvolvimento cientifico e tecnológico  da nação sejam cuidadosamente elaboradas baseando-se principalmente em aspectos de responsabilidade , justiça e ética.

 

RECOMENDAÇÕES

Considerando-se que o processo de desenvolvimento internacional vigente exige  a implantação continua de   estratégias  que promovam a melhoria de condições de vida das populações envolvidas , através da redução das desigualdades sociais e regionais e proteção ao ambiente;

Considerando que a natureza contém  valores  fundamentais específicos , sendo que a  vida e sua proteção devem estar acima dos acordos comerciais internacionais; 

Considerando as diretrizes sócio-econômicas contempladas nas disposições sobre a Defesa do Consumidor, os Direitos Sociais, os Princípios Gerais da Atividade Econômica, a Função Social da Propriedade e a Saúde pela Constituição Federal, além da Política Nacional do Meio Ambiente, da Política Nacional de Saúde e do Código de Defesa do Consumidor;

Considerando os Princípios da democracia, do direito de receber e ter acesso à informação e da publicidade previstos na Constituição Federal, na Política Nacional do Meio Ambiente e no Código de Defesa do Consumidor;

Considerando o Princípio da Precaução referendado em inúmeros acordos / convenções  internacionais , e legislações vigentes no País ;

Considerando-se que o emprego da biotecnologia  pode permitir que venham a ser desenvolvidos organismos  vivos com características e funções conhecidas de forma controlada e que poderão , potencialmente, trazer  uma melhora da qualidade de vida humana

Considerando que a engenharia genética difere fundamentalmente de outras ferramentas e processos biotecnológicos, conforme referido  na Lei nº 8.974/95, e que a liberação ambiental de OGMs não tem precedentes na natureza e o desconhecimento dos possíveis impactos ambientais causados,

 

 O CFBIO RECOMENDA aos biólogos do Brasil :

-          a promoção  da defesa da  soberania dos povos e da nação   sobre seu patrimônio genético , através da  criação  de estratégias sustentáveis que propiciem  condições adequadas  de preservação  da biodiversidade e de  vida das populações  humanas envolvidas nestes processos.

 

-          a discussão dos aspectos  éticos  no uso da  biotecnologia  deve ser conduzida no plano da informação científica à sociedade , em uma linguagem acessível,  do argumento e não através da consciência privada, sendo abominável falar em foro íntimo quando o assunto em questão é por exemplo a  ética. Sem esse cuidado, corre- se o risco de se agir de forma que ocorra uma defesa corporativa contra os interesses de toda a  sociedade.

 

-          que se mantenham permanentemente atentos e  atualizados em relação aos avanços científicos relacionados com o assunto "Biotecnologia e uso de OGMs"  , aos benefícios decorrentes de sua  utilização , incluindo-se aspectos relacionados com melhorias advindos da mesma no que tange às condições de saúde  e desenvolvimento das populações humanas, e   contrapondo as distintas situações no que tange às condições existentes em relação às conseqüências  econômicas ,  sociais e culturais decorrentes da utilização desta tecnologia , incluindo-se nesta fase também os eventuais riscos  ambientais , à saúde, e outros ,   procurando atuar corretamente, principalmente no que tange ao exercício profissional, e em obediência aos preceitos básicos do código de ética profissional.

 

OBSERVAÇÃO :

 

As definições utilizadas neste documento , são as constantes no Art. 3º , da Lei Federal 8974 de 05.01.1975 (Lei de Biossegurança).